
Não é novidade que os filmes baseados em HQs (histórias em quadrinhos) vêm atravessando uma fase excelente dentro da sétima arte. Não só sucessos de bilheteria como também de crítica, converteram-se rapidamente em apostas quase sempre certeiras para os estúdios. Apostas estas que começam já a mostrar sinais de cansaço. Aparentemente, estamos agora atravessando a segunda fase da hegemonia dos filmes baseados nessa mídia, isto é, as produções que se originam a partir de filmes baseados em HQs. Spin-offs, como se diria em inglês, mas em português completamente intraduzível. A origem em questão é Demolidor - O Homem Sem Medo, longa morno e equivocado de 2003, e o fruto é Elektra, o primeiro spin-off desta nova geração.
Jennifer Garner (Elektra Natchios) retorna ao papel feito em Demolidor, desta vez sem estar acompanhada do insuportável Ben Affleck, e também um pouco mais à vontade em seu traje de super-heroína. Misteriosamente ressuscitada por um guru cego chamado Stick (Terence Stamp), ela passa a ser sua melhor aluna no aprendizado contínuo das artes marciais. Após ser expulsa por seu mestre, Elektra inicia uma carreira de mercenária, convertendo-se numa assassina fria e calculista, e é neste ponto que o filme se inicia. Após concluir mais um assassinato, ela recebe uma missão estranha: ficar numa casa de campo enquanto aguarda instruções sobre quem serão suas próximas vítimas. Enquanto isso, a moça acaba se afeiçoando aos seus vizinhos, vindo a saber mais tarde que eles são a sua tão esperada missão. Disposta a protegê-los, ela terá que encarar os sinistros ninjas do Tentáculo, uma seita demoníaca com estranhos interesses pelos protegidos de Elektra e por ela mesma.
Dentro das histórias do Demolidor, personagem bastante conhecido e amado entre a base de fãs de HQs, Elektra nunca passou de uma boa coadjuvante. Misteriosa, linda e assassina. Mas, ainda assim, uma coadjuvante sem força para sustentar um título próprio, como mostram as inúmeras e malfadadas séries produzidas pela Marvel Comics ao longo dos anos. Nestas séries, a personagem foi morta e ressuscitada uma pá de vezes, trocou de personalidade umas tantas e trilhou um caminho vergonhosamente redundante, que nunca a aproveitou tão bem quanto Frank Miller em seu período clássico à frente das histórias do Homem Sem Medo. Com o cinema seria difícil ser diferente, e é isso que Elektra, o filme, acabou se tornando. Um filme à parte, desprovido da força dos principais nomes da Marvel Comics, entregue à própria sorte por não ter muito o que apresentar a partir de um roteiro que, muito antes de ser elaborado, corria sério risco de ser uma porcaria.
Rob Bowman é um diretor bem mais qualificado que Mark Steven Johnson, a mente por trás de Demolidor - O Homem Sem Medo, e tenta do jeito que sabe garantir um mínimo de diversão à platéia. Uma tarefa complicada, já que a história pífia limita-se a colocar os ninjas atrás da heroína e de seus protegidos, não explica direito porque eles são perseguidos e incomodamente enfia Stick (sem trocadilhos infames, por favor) na lambança perto do final do filme. O que é uma pena, pois o longa começa muito bem. Ele enfia os pés pelas mãos justamente quanto os orientais do Tentáculo decidem mostrar as caras. Nem a escalação de Mary Tyfoid, fascinante personagem da galeria de vilões do Demolidor, em meio aos ninjas do Tentáculo, é capaz de melhorar a palhaçada. A heroína Elektra e seu aspecto sombrio e nada palatável é logo substituído pela empatia fácil, ainda que o clima do filme se mantenha melancólico e algo opressivo durante a maior parte do tempo.
Os aspectos psicológicos e físicos da heroína são assimilados com maestria por Jennifer Garner. É uma lástima que a moça, decididamente uma boa atriz e motivo principal para qualquer platéia se arriscar assistindo a Elektra, não tenha tido uma história à altura.
Texto postado por Kollision em 7/Fevereiro/2005